sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Férias em família


             Poucas vezes minha família se reuniu para viajar juntos. Os motivos englobam: muitas brigas por besteiras e discussões infinitas sobre quem paga o que. Eu tenho uma razão pessoal de não querer viajar com eles: como se já não bastasse minha facilidade de me auto humilhar, eles tem uma grande inclinação para me ajudar a piorar qualquer situação. Na nossa ultima tentativa, enquanto eu tropeçava em cima do garçom com toda comida, meu vô apertava a bunda da garçonete e meu irmão e primos faziam concurso de arroto e peido na mesa em um restaurante lotado.
            Desta vez eu tinha decidido que, apesar de ir com eles, eu manteria minha distância, faria minhas cagadas sem intromissão familiar. Fomos então para a praia. Não que algum dia tenhamos feito diferente, é sempre muita criatividade rolando solta pra escolher o local.
            Eu tinha baixado um aplicativo de encontros chamado Happn, que funciona mostrando as pessoas que cruzaram o teu caminho, e tens a opção de mandar mensagem para tais indivíduos. Assim, meu caminho e do J. se cruzaram. Gostei da foto, estava vivendo minha fase “loiro (a) de olhos claros”, e ele assim era (é, acredito que ainda esteja vivo).  Começamos a conversar, verificamos alguns pontos em comum que nos fizeram ter vontade de continuar a conversa, pessoalmente. Marcamos num restaurante próximo a onde eu estava hospedada.
            Chegando lá eu reparei que tinha um palco de karaokê. O que eu não vi logo de chegada que era o meu crush em cima do palco, começando a cantar  a musica mais dor de cotovelo da historia: Evidencias ( pra quem não lembra, a letra é algo assim: “ e nessa loucura, de dizer que não te quero, vou negando as aparências, disfarçando as evidências..”), apontando com o dedo indicador na minha direção, cantando com uma voz de tenor de manicômio e fazendo todo o ambiente olhar pra minha cara e rir , e acho que era de pena. Meu primeiro instinto foi fugir e o deveria ter ouvido, mas aqueles olhos azuis dele me cativaram a sentar numa mesa e aguardá-lo.
            Terminado o vexame inicial, ele se encaminhou à mesa. Logo que ele começa a falar eu começo a sentir um cheiro podre, de algum bicho em estágio avançado de putrefação e penso que alguém da mesa próxima estava peidando mais fedorento que eu quando como feijão com repolho e ovo. Não era a mesa ao lado, era ele. E não era peidando, era falando, era a putaquepariu do bafo nojento dele que mataria alguém se ele resolvesse gritar na cara da pessoa. Sem exageros. E ele não parava de falar, fazendo que todo o ambiente ao redor ficasse impregnado. Meu único e errôneo pensamento no momento era que não tinha como piorar. Mas tinha. Minha família inteira resolveu ir jantar lá naquela mesmíssima noite.
            Os Buscapé (como eu denominava meus parentes) começaram a beber, e até então tudo bem, eu não tinha morrido com o odor produzido pela boca de J., que era fortemente sentido mesmo a distância segura de uma mesa, e eles não tinham me visto ali. Ainda. Assim que meu irmão pisou no palco mais bêbado que turista em micareta, me avistou e gritou:
-Mari, vem pro palco cantar comigo, ele grita.
            “Fudeu, fudeu de vez agora” eu penso, e logo vou juntar-me ao bonito, pois era melhor que ficar sentindo o hálito de hiena do moço ali. Eis então que  e vem uma ideia de gênio: vou cantar com voz de Anderson Silva gripado assim o querido fica com vergonha e vaza de lá, e eu posso juntar-me aos Buscapé pelo resto de noite. E assim subi ao palco com meu irmão para cantar “This Love” do Maroon 5. Depois da pior (ou melhor, depende do ponto de vista) performance da minha vida, o bafento continuava lá e aplaudia meu desastre musical. Tive então um insight de ALTÍSSIMO NÍVEL: vou pedir ajuda ao meu irmão. E contei pra ele sobre as questões bucais de J.
            Vinícius (meu irmão) vai até a mesa, olha pra ele e fala:
  Acredito que minha irmã não vai voltar a sentar contigo.
  Por que?
  Porque tens o pior bafo que algum ser humano já sentiu.
            Obrigada, mano. Fico te devendo

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