Já aprontei muito nesta minha vida,
acho que toda merda que estava ao meu alcance, era alcançada com
magnitude. Talvez pela minha condição
médica de extrema burrice, falta total de maturidade e sonho de querer fazer
parte do elenco de “Jackass”, sempre foi natural tentar fazer as maiores
estupidezes que eu poderia.
Com essa minha personalidade eu
entrei no curso de Farmácia, na UFRGS, tantos anos atrás que não vale a pena
comentar a exatidão dos números. E sendo assim que eu topei fazer parte do
trote de início do curso. E o trote tinha dois objetivos: juntar dinheiro para
a festa de abertura do curso e humilhar os calouros. Algumas pessoas da galera se organizaram para
vender rifas e assim conseguir o dinheiro. Eu já pensei que era algo muito
chato e uma experiência merreca de início de curso. Estava em busca de emoção,
e vergonha.
Assim sendo o grupo dos mais alternativos
– ou dos sem noção – resolveu que íamos conseguir o dinheiro em sinaleira. Como
a tática de ficar todo emporcalhado só servia para causar asco às pessoas, de atirarem
até objetos para que não se aproximassem delas naquele estado, optamos por
outra: apelo ao sexo. Não estou dizendo que alguém iria vender o corpo
sexualmente, só para ficar claro, prostituição é crime. A ideia era que alguns
de nós iriamos mostrar a bunda, no sinal fechado, e esperar que nos dessem
dinheiro por isso. Para tanto, as melhores bundas foram selecionadas, dentro
dos critérios, tais como: bundas não peludas, mais arredondadas e não
pelancudas, ou seja, só a das gurias e de um dos meninos (que por acaso era a
mais bonita entre todas).
O que acontece é que nem os mais
caras de pau conseguem fazer um disparate destes, sóbrios. Sem a coragem
líquida estávamos cientes de que íamos jogar batalha naval sem os navios. Compramos
então duas vodcas com o orçamento que tínhamos: 50 reais. Um adendo: duas
vodcas para cada um da equipe, e assim deixo, à imaginação do leitor, pensar
sobre a qualidade da bebida.
Organizamos a equipe da seguinte
forma: quatro pessoas mostrando a bunda e os outros quatro dando apoio, que
funcionava assim: dois recolhiam o dinheiro, um cuidava do dinheiro recolhido e
supostamente da segurança de quem estava se expondo e o outro completava a
nossa humilhação fazendo vídeos para a internet. Era nosso plano B para
conseguir arrecadar alguns trocados.
O plano estava dando muito certo. As pessoas
riam se divertiam, e nos davam dinheiro. Até que Diego mostrou a bunda em sua
vez e um senhor ficou encarando muito e em poucos segundos ouvimos a senhora ao
lado dele gritando, mas muito alto, todos que estavam em volta conseguiam
escutar:
- Eu não aguento mais, Alfredo,
passou a vida me traindo com outras pererecas e, quando eu penso que parou, tu começas
a querer comer cu??? Ahhh eu vou me separar, mas primeiro vou chamar a polícia.
Achamos que era algum ataque nervoso
de uma senhora que já teria sido muito traída ao longo de sua vida, mas que ela
não iria levar a cabo a ideia de ligar para polícia. Ou se ligasse, eles ignorariam
por entender que se tratava de trote de faculdade, e eles realmente assim
procederiam, não fosse um pequeno detalhe: a velha era deputada que fazia com
que o orçamento policial fosse ampliado, fato que nos era desconhecido até o
desenrolar dos fatos.
Quando foi a minha vez de levantar a
saia e mostrar a bunda, fico de costas, faço o show e 5 segundos depois ouço
uma sirene tocando atrás de mim. Sim, fui presa, acusada de ato obsceno. Passei
a adolescência inteira fumando maconha em todos os lugares possíveis e nada me
aconteceu. Mostrei a busanfa em um trote de universidade, fui levada de
camburão.
Como eu era ré primária, e de delito
leve, me ficharam e resolveram não prosseguir com o processo, e que me
soltariam assim que chegasse alguém para me buscar que se responsabilizasse por
mim. Senão, passaria a noite encarcerada.
Liguei para casa e quero reproduzir o
diálogo. Primeiro, meu avô atende:
- Oi vô, fui presa, preciso que alguém
venha me buscar.
- Maconha de novo, Gabriela?
- Não vô.... Nunca fui presa em
função de maconha. É que eu mostrei a bunda numa sinaleira, trote de faculdade,
e a polícia me enquadrou.
- O quê???????? NÃO ACREDITO!!!!! Tu
nunca foste presa mesmo em razão da maconha???
Passou o telefone pra minha mãe,
resmungando “perdi o bolão dos meus amigos da bocha, tinha certeza que a guria já
tinha sido presa por maconha e que era a neta mais delinquente da turma”. Minha
mãe atende dizendo:
- O que tu fez?
Expliquei. De novo. E ela:
- Ok, foi presa por mostrar a bunda,
agora faz assim, mostra aí a perereca e sobrevive esta noite, que amanhã eu te
busco.

